IDENTIDADE DOCENTE EM PROCESSOS FORMATIVOS: UM OLHAR DE PROFESSORES INDÍGENAS QUE ENSINAM MATEMÁTICA NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL NA REDE MUNICIPAL DE MANAUS

REJANE MARIA CALDAS FREITAS

Resumo


A diversidade linguística, cultural, intelectual e social entre os povos indígenas existentes na Amazônia configura um vasto campo de estudos sobre as questões pertinentes à educação escolar indígena e à formação de professores. Nesse contexto, o presente estudo tem por objetivo investigar como professores indígenas que ensinam matemática nos anos iniciais do Ensino Fundamental percebem e constroem sua identidade docente, considerando os processos formativos promovidos pela Secretaria Municipal de Educação-SEMED do município de Manaus-Amazonas. O objeto de pesquisa concentra-se na identidade docente de professores indígenas que ensinam matemática em escolas indígenas municipais de Manaus, situadas em comunidades ribeirinhas (EIM Arú Waimi e EIM Kanata T-Ykua). A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com ênfase na etnometodologia. Foram utilizados como instrumentos de coleta de dados: entrevistas semiestruturadas com 11 participantes, incluindo professores indígenas, gestores e formadores da Gerência de Educação Escolar Indígena (GEEI); análise documental; observação participante e diário de campo. A análise dos dados foi realizada por meio da Análise do Discurso (AD) e da Análise Crítica do Discurso (ACD), com base em Pêcheux, Orlandi e Fairclough, permitindo uma compreensão aprofundada das construções identitárias e dos processos formativos. Os resultados indicam que a identidade docente de professores indígenas é um fenômeno multifacetado, moldado por dimensões socioculturais, sociolinguísticas e interações interepistêmicas. A investigação apontou que os professores indígenas percebem que os programas de formação da SEMED-Manaus necessitam de aprimoramentos para atender às especificidades culturais e pedagógicas desses profissionais, especialmente no que tange à articulação entre a matemática formal e as matemáticas indígenas. Também apontam fragilidades na conexão entre a teoria e a prática pedagógica, bem como a necessidade de formadores especializados em contextos indígenas. Identificou-se uma tensão entre a formação padronizada oferecida pela rede municipal e a necessidade de uma abordagem intercultural e crítica que valorize a identidade étnica e docente dos professores. Os professores indígenas e o gestor indígena evidenciam, em suas manifestações, consciência crítica sobre a importância de uma formação que articule a matemática com seus contextos culturais, mas enfrentam limitações estruturais e falta de apoio institucional. Assim, percebeu-se que a identidade docente é construída em um movimento dialético entre a formação recebida, a prática pedagógica e a autoafirmação cultural, embora ainda persistam fragilidades na consolidação de uma identidade profissional intercultural. A investigação aponta que é necessário repensar os processos formativos para professores indígenas, de modo que estes incorporem efetivamente uma perspectiva intercultural, crítica e decolonial. A construção da identidade docente indígena está intrinsecamente ligada ao reconhecimento e à valorização de seus saberes tradicionais, à superação de lacunas formativas e à implementação de políticas educacionais que garantam uma educação matemática contextualizada e emancipatória. O estudo contribui para o debate sobre formação docente, educação escolar indígena e ensino de matemática, destacando a necessidade de diálogo entre conhecimentos científicos e conhecimentos tradicionais indígenas.

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